Pe. Constantino González, SJ - 1º diretor do Colégio dos Jesuítas
Constantino González, o nosso Pe. Constantino, nasceu na Espanha em 11 de março de 1922, é membro da Companhia de Jesus desde 1938 e chegou ao Brasil em 1952, tornando-se 4 anos depois o 1º Diretor do recém-inaugurado Colégio dos Jesuítas em Juiz de Fora.
No início do ano letivo de 2003, ele foi "apresentado" pelas professoras aos alunos da 4ª série, que demonstraram muita curiosidade, apresentando questões sobre suas histórias de vida. Um dos integrantes do Núcleo de Mídia-Educação com muita satisfação foi o interlocutor das perguntas dos alunos e partilha alguns dos momentos dessa agradável conversa:
De onde veio a idéia de virar um jesuíta? (Gabriel Coutinho Galil)
Vou tentar resumir... Quando criança, minha mãe me botou para ser coroinha aos 6 anos. Ele (referindo-se ao Sacerdote) nos dava uns tostões para comprar balas e era uma isca muito gostosa (risos)... e adocicada. Aos 13 anos, eu já tinha uma namoradinha, mesmo sendo coroinha, mas era uma menina que morava a uns 80 quilômetros da minha paróquia, da minha residência. Um bom dia, ele (o Sacerdote) apareceu em casa e me perguntou se eu não gostaria de estudar para ser jesuíta. Eu falei que não tinha dificuldade, achava que pudia ser. Meu pai achou bonito, minha mãe também! Então, decidimos fazer os trâmites para ir para o seminário. Minha mãe marcou toda minha roupa, comprou roupa nova, mas chorando... marcando minha roupa e chorando. "Mãe, por que está chorando?" "Porque você vai embora!" "E a senhora não queria que eu fosse jesuíta?" E ela me contou uma história da minha infância: quando eu nasci, ela estava para participar de uma missão com 3 padres missionários na paróquia. Mas como eu estava para nascer e ela não podia ir na igreja, então minha avó falou: "Filha, você não xinga esse menino porque ele não tem culpa de nada. Eu vou rezar para que ele seja missionário. Tá bom?" E a minha mãe se conformou. Eu nasci e quando eu fui crescendo, era um traste. Não dava sossego a ninguém. Nem ao gato, nem ao cachorro, nem às galinhas, nem aos porquinhos, não havia jeito. Fui crescendo a fui criando um pouco mais de juízo. E então o padre achou que poderíamos experimentar, fui para o seminário, conheci São Francisco Xavier, e então a vocação de ser missionário jesuíta. Esta é a minha história...
O senhor, em algum momento da sua vida, pensou em sair da Companhia de Jesus? (Hugo Ramos de Abreu)
Nunca!!!
Há quanto tempo o senhor veio para o Brasil? (Hiram Corte Real Finamore)
Há 50 anos. Na primeira remessa, em 1952, viemos 12 jesuítas espanhóis: 4 padres, 3 teólogos, 3 filósofos e 2 irmãos. Devem estar por aqui na província ainda alguns. Outros voltaram para Espanha, como jesuítas. E alguns saíram da Companhia.
Por que decidiram fundar o Colégio aqui em Juiz de Fora? (Taís Ribeiro Altomar)
Foi pedido de umas 100 famílias de ex-alunos dos Colégios de Friburgo, que era Internato, e do Santo Inácio, no Rio de Janeiro, para educar os filhos deles, pois tinham gostado muito da educação que receberam. Os pais, pois naquela época as mulheres não estudavam quase. Havia poucas mulheres profissionais. Advogadas, juízas, não havia. Professoras, sim. Formavam-se no "Curso Normal".
Como o senhor se sente por ter sido o 1º Diretor do Colégio? (Érica Chaves Moraes, Jéssica Araújo Viveiros Valverde, Marcela Moreira Dore, Pedro Henrique Lima Machado e Wanessa Rodrigues de Souza)
Era muito sofrimento (risos)... Muita luta, muita carência. Muita gostosura também, no sentido de que nós conhecíamos não só os alunos, mas também as famílias. Nos conhecíamos profundamente. Eram poucos... no 1º ano, chegamos a 70. Era muita amizade. Aquelas famílias eram realmente heroínas, sobretudo as mães. Organizavam festas, teatro... havia uma banda de música muito simpática. Nos anos seguintes, o número de alunos foi aumentando.
O que era mais difícil de administrar no Colégio? (Priscila Carvalho de Andrade)
Nós passamos aperto econômico, mas sem estridência... Nunca foi, assim digamos, uma bancarrota. Porque a Companhia é uma instituição poderosa. E então as casas ajudaram o financiamento de obras. Aquele pavilhão, por exemplo, onde está o colegial (referindo-se à 3ª série do ensino médio), foi feito com dinheiro de jesuítas, mas não de Juiz de Fora. São Luís (São Paulo), Santo Inácio (Rio de Janeiro) e Loyola (Belo Horizonte), os três colégios ajudaram muito.
Tem alguma coisa que o senhor fez ou deixou de fazer, quando era Diretor, e se arrepende por isso? (Aline Furtado Francisquini)
Olha... em questão de construção, praticamente eu não fiz nada! Agora, quanto à parte educacional, o ambiente daquela época era de autoridade. Então eu era a cara feia do Reitor! A minha obrigação era passar bronca nos meninos, destacar a eles as boas qualidades que tinham, e o desperdício que estavam fazendo com aquelas boas qualidades. Eu tinha que zelar pela ordem do Colégio, pelo Regulamento do Colégio. Pontualidade, aplicação, comportamento, nada de brigas...
Para o senhor, foi melhor ser professor de Matemática ou Diretor? (Gabriel Junqueira Lopes)
Eu gostava mais de lecionar do que de passar bronca (risos).
O que o senhor acha do Colégio hoje, comparado a antigamente? (Eugênio de Alencar Fernandes)
Muito melhor, sem comparação.
Tem algo que o incomoda no Colégio? (Breno Cheuen Bicalho)
A mim, não. Eu apenas gosto de trabalhar, ter atividade.
Como é seu trabalho hoje? (Júlia Gonzaga Magalhães)
Eu agora estou trabalhando em missões fora do Colégio. Eu me ocupo lá na Pastoral Diocesana. Nós estamos agora fazendo uma igreja novinha nas Granjas Betânia. Um sonho antigo já de muitos anos, mas dinheiro não havia. Então devido a mim, formamos uma comissão pró-construção da igreja e a igreja já está funcionando. Uma igreja muito bonita... um engenheiro que fez questão de não cobrar um tostão sequer. Eu não me sinto fracassado: sendo jesuíta, eu posso estar varrendo um corredor... e sou feliz!
O que o senhor acha que deve melhorar no Colégio? (Diogo Machado de Oliveira, Felipe Couto Gomes, Marconi Andrade Soares Filho e Raphael Fellet Barbosa)
Bom, eu acho que fundamental é o amor que os alunos têm dos professores. E é muito salutar! Porém, a impressão que eu tenho é de que não há rivalidade. Antigamente havia o chamado estímulo. Eram os tais desafios na sala de aula para ver quem sabe mais e quem sabe menos: Turma "A" e Turma "B" (com a mão, aponta para a esquerda e para a direita).
Uma mensagem para os membros da comunidade educativa:
Quem está no Colégio sabe, percebe, que se trata de uma entidade honesta, que não tem segundas intenções, capaz de endireitar muitas vezes a vida de muitas crianças, muitos adolescentes. Então, deve aproveitar a ocasião de ser um bom aluno, ou ser um bom professor, um bom amigo... são amizades que realmente podem durar a vida inteira! Formamos parte de uma entidade chamada Igreja... comunidade eclesial. E aqui todos nós passamos alguns anos de nossas vidas, em benefício da comunidade. Ir para frente; aproveitar o bom que Deus coloca em nossas mãos!
Entrevista publicada no Boletim Informativo - Ano 21 número 109 -
Edição de Fevereiro/Março 2003
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