Blog

Carta às famílias: um convite à reflexão para o nosso recesso escolar

Leia a carta assinada pelo diretor-geral do Colégio dos Jesuítas, Pe. Marco Antonio, SJ, convidando ao pensamento

 

 

Queridas famílias,

 

Ao longo de seus 70 anos de história, o Colégio dos Jesuítas, animado pela espiritualidade de Santo Inácio de Loyola e pela tradição educativa da Companhia de Jesus, forma pessoas conscientes, competentes, compassivas, comprometidas, criativas e capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor, com uma sociedade mais justa e fraterna.

 

Essa missão nos desafia diariamente a educar para o conhecimento rigoroso e denso. Também para a convivência, para a responsabilidade e para o cuidado com as pessoas.

 

Na perspectiva inaciana, a disciplina é um caminho de aprendizagem, crescimento e formação de caráter. Quando um estudante erra, nossa primeira pergunta não é apenas “qual sanção aplicar?”, mas também “o que esse estudante precisa aprender?”, “como reparar o dano causado?” e “como restaurar as relações afetadas pelo ocorrido?”.

 

Educar é ajudar a reconhecer erros, assumir responsabilidades, compreender consequências e desenvolver a liberdade interior necessária para fazer escolhas melhores, cada vez mais conscientes e alinhadas ao bem comum.

 

Educar é formar o indivíduo para a vida em sociedade, isto é, no contexto coletivo mais amplo, para além da família. Nesse sentido, a escola prepara para a convivência com o outro, com o diferente de si e de sua família, lidando, assim, com os conflitos próprios das relações interpessoais.

 

Por isso, toda situação envolvendo desrespeito às normas de convivência ou comportamentos inadequados é tratada com seriedade por nossa instituição. Temos a responsabilidade de escutar atentamente as partes envolvidas, compreender os fatos, avaliar contextos e orientarmo-nos pelo Regimento Escolar, que expressa nossos valores e guia nossas ações pedagógicas.

 

Ao mesmo tempo, como uma escola, é importante compreender que a nossa atuação também está pautada em limites legais e éticos que existem justamente para proteger crianças e adolescentes, em suas individualidades e na coletividade.

 

A Constituição Federal estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar às crianças e aos adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à educação, ao respeito, à dignidade e à proteção integral. Da mesma forma, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o direito ao respeito, à preservação da dignidade, da imagem, da identidade e da vida privada de cada estudante.

 

Esses direitos implicam consequências concretas para o trabalho educativo das escolas. Uma delas é a obrigatoriedade de resguardar a privacidade e os direitos individuais de todas as crianças e adolescentes, sem divulgar informações relativas a medidas educativas ou disciplinares eventualmente aplicadas. Embora compreendamos a legítima preocupação das famílias diante de determinadas situações, a legislação brasileira e também nosso modo inaciano de proceder nos atribui o dever de proteger a privacidade de nossos estudantes.

 

Assim, a escola age permanentemente e não se omite diante de quaisquer situações que venham a comprometer o bem-estar de nossa comunidade educativa, respeitando cada indivíduo e a coletividade. Da mesma forma, o direito à educação e à permanência na escola exige que toda atuação disciplinar respeite a condição de pessoa em desenvolvimento dos estudantes e a finalidade educativa própria da escola.

 

Isso não significa omissão ou ausência de responsabilização. Ao contrário. Sempre que os fatos apurados o exigem, são adotadas medidas educativas e disciplinares proporcionais à gravidade da situação, em conformidade com o Regimento Escolar, a legislação vigente e a missão educativa do Colégio. Tais medidas são norteadas também por nossa Política Interna de Proteção aos Direitos da Criança e do Adolescente, criada pela Companhia de Jesus no Brasil e levada à cargo pela Comissão Permanente do Cuidado do Colégio.

 

Nosso compromisso é buscar o equilíbrio entre princípios igualmente importantes: a proteção das vítimas; a responsabilização dos envolvidos; o direito à educação; o respeito à dignidade de cada pessoa; a preservação da privacidade; a justiça; a reconciliação e a promoção da cultura da paz.

 

Como escola da Companhia de Jesus, acreditamos que autoridade e cuidado caminham juntos. Acreditamos que a justiça não se opõe à misericórdia. Acreditamos que a firmeza não se opõe ao acolhimento. E acreditamos, sobretudo, que cada estudante, cada ser humano, é sempre maior do que o seu erro.

 

Por isso, buscamos construir uma comunidade educativa que favoreça não apenas o reconhecimento responsável das consequências de cada ato, mas que proporcione oportunidades reais de crescimento humano, reparação dos erros e transformação.

 

A tradição educativa jesuíta nos ensina que formar pessoas implica ajudá-las a desenvolver discernimento, consciência moral, autonomia, senso de responsabilidade e compromisso com os outros. Esse é o horizonte que orienta nossas decisões e nossa forma de conduzir os desafios da convivência escolar.

 

Renovamos, portanto, nosso compromisso com uma atuação justa, transparente, responsável e coerente com os valores que definem nossa identidade institucional: a busca da excelência humana, o cuidado com cada pessoa (cura personalis), a promoção da justiça, o discernimento, o diálogo e a construção do bem comum.

 

A responsabilidade compartilhada de educar

 

Nenhuma escola educa sozinha. Citando um conhecido provérbio africano, para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira. A tradição educativa da Companhia de Jesus reconhece a família como a primeira e mais importante comunidade educativa de uma criança ou adolescente. É no ambiente familiar que se aprendem os primeiros valores, o respeito às diferenças, a responsabilidade pelos próprios atos, a capacidade de pedir perdão, de reparar erros e de conviver com os limites próprios da vida em sociedade.

 

A escola exerce um papel complementar e indispensável, mas não substitui a missão educativa das famílias. Da mesma forma, as famílias não podem delegar integralmente à escola a formação ética, afetivo-social, espiritual-religiosa e cidadã de seus filhos. Por isso, acreditamos que os melhores resultados educativos acontecem quando família e escola atuam em verdadeira parceria, compartilhando valores, expectativas e responsabilidades.

 

Em uma sociedade cada vez mais marcada pela polarização, pela intolerância, pela comunicação impulsiva e pelo enfraquecimento dos vínculos afetivos e comunitários, torna-se ainda mais importante que trabalhemos juntos na formação integral das crianças e dos adolescentes.

 

Quando família e escola caminham juntas, oferecemos aos estudantes uma mensagem coerente e fortalecemos sua capacidade de fazer escolhas responsáveis, éticas e comprometidas com a dignidade de todas as pessoas. Educar, portanto, é uma missão que família e escola não realizam lado a lado, mas juntas.

 

Uma proposta para este tempo de recesso

 

Às vésperas do recesso escolar, gostaríamos de convidar nossas famílias a transformarem este período em uma oportunidade de reflexão sobre a missão educativa que compartilhamos.

 

Sugerimos a leitura de alguns trechos do Capítulo VII (“Reforçar a educação dos filhos”) da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, escrito pelo Papa Francisco. Nesse texto, o Santo Padre jesuíta nos recorda que educar não significa apenas corrigir comportamentos ou controlar atitudes, mas ajudar os filhos a desenvolver consciência moral, liberdade responsável, capacidade de discernimento e compromisso com o bem.

 

Em especial, gostaríamos de destacar esta reflexão:

“O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (Amoris Laetitia, n. 261).

 

Propomos, ainda, um roteiro com perguntas para nortear a reflexão e aprofundamento acerca da educação das crianças e dos adolescentes, segundo nosso modo inaciano de proceder.

 

Agradecemos profundamente a confiança depositada em nosso trabalho e reafirmamos nossa convicção de que a educação é sempre uma missão compartilhada entre escola e família. Somente juntos poderemos continuar formando homens e mulheres para — e com — os demais, capazes de contribuir para a construção de um mundo melhor, mais humano, mais justo e mais reconciliado.

 

Com carinho,

 

Pe. Marco Antonio de Oliveira Santos, SJ

Diretor-Geral do Colégio dos Jesuítas

 

Clique aqui e acesse o texto da Exortação Apostólica Amoris Laetitia

 

Leia, abaixo, o roteiro para reflexão e aprofundamento

 

Sobre a família

  • Quais são os três valores mais importantes que desejamos transmitir aos nossos filhos?
  • O que nossos filhos aprendem conosco ao observar nossas atitudes diárias?
  • Estamos educando mais pelo exemplo ou pelas palavras?
  • Como reagimos quando nossos filhos erram?
  • Eles percebem que podem reconhecer erros sem perder nosso amor e nosso apoio?

 

Sobre liberdade e responsabilidade

  • Estamos ajudando nossos filhos a desenvolver autonomia ou apenas a seguir regras?
  • Eles compreendem que toda liberdade traz responsabilidade?
  • Como ensinamos nossos filhos a lidar com as consequências de suas escolhas?
  • Estamos formando jovens capazes de tomar boas decisões quando ninguém está observando?

 

Sobre convivência e respeito

  • Como falamos, em nossa casa, sobre pessoas diferentes de nós?
  • O respeito é um valor realmente vivido em nossas relações familiares?
  • Nossos filhos aprendem conosco a importância da empatia?
  • O que estamos fazendo para educá-los para o diálogo, para a tolerância e para a convivência pacífica?

 

Sobre justiça e cuidado com as pessoas

  • Estamos ajudando nossos filhos a perceber que toda pessoa possui dignidade e merece respeito?
  • Como ensinamos a importância de pedir perdão e reparar os próprios erros?
  • O que significa, para nossa família, promover o bem comum?
  • Como podemos contribuir para uma comunidade escolar mais acolhedora, respeitosa e fraterna?

 

Sobre a parceria família-escola

  • O que esperamos da escola na formação de nossos filhos?
  • O que a escola pode legitimamente esperar de nossa família?
  • Como podemos fortalecer a parceria entre família e escola no próximo semestre?

 

Sobre o legado educativo

  • Que tipo de pessoa estamos ajudando nossas crianças e adolescentes a se tornarem?